domingo, 23 de outubro de 2016

Dieta do Jejum Intermitente: a solução ou mais uma dieta da moda?

A chamada "Dieta do Jejum Intermitente (JI)" tem recentemente ganhado popularidade como uma forma rápida e fácil de perder peso. Um sonho de consumo para todos que estão na batalha para emagrecer, não é mesmo? Os  divulgadores dessa prática defendem a ideia de ela que seria mais saudável do que as tradicionais dietas, por melhorar a qualidade de vida e prevenir doenças cardíacas, diabetes, câncer e demência. Mas será que isso é verdade? Será que essa dieta realmente funciona? E mais, será que é seguro submeter-se a períodos de jejum com o intuito de emagrecer?  Nessa dieta se faz jejum por 2 ou 3 dias na semana, não consecutivos ou alternados (alternate day fasting) e com duração que varia de 16 a 24 horas. Como os períodos longos de jejum poderiam ser difíceis de seguir,  criou-se uma estratégia que permite que haja o consumo de determinados alimentos, preferentemente gorduras e proteínas, por períodos limitados do dia (time-restricted feeding). Na prática, a hipótese é de que ao se fazer jejum, provoca-se uma resposta hormonal no corpo que resulta em queima de gordura e uma "limpeza" do organismo. Isso resultaria em perda de gordura corporal e manutenção da massa magra, aumento da longevidade, prevenção de câncer de mama, próstata e pâncreas, redução de doença coronariana e de demência. Mas um detalhe importante: esses resultados do JI foram na maioria observados em estudos com animais (roedores). Embora seja óbvio, é bom lembrar que não podemos garantir que o que se observa em animais será igual em humanos. Na verdade, existem poucos estudos bem feitos em seres humanos que avaliem os efeito do JI sobre a nossa saúde a  longo prazo.



Mas essas pesquisas nos dão algumas informações bem interessantes. Vamos ver o que a ciência séria nos diz? Vamos analisar 4 pontos: 1) funciona para emagrecer e melhora metabolismo? 2) é mais fácil de fazer ? 3) previne doenças? 4) é seguro a longo prazo? Primeiro, é possível sim perder peso quando se pratica o JI, obviamente decorrente da restrição calórica que é imposta. Tem se descrito reduções de 2,5 a 8% do peso corporal após 3 a 12 semanas de dieta de JI, mas com perda não somente de gordura, mas também de massa magra e água. Quanto aos efeitos sobre o metabolismo, os resultados são controversos. Enquanto alguns estudos relatam redução dos níveis de triglicerídeos e colesterol LDL (o "ruim") e aumento do HDL (o "bom"), outros mostram resultados contrários, com aumentos dos níveis de LDL provocado pelo JI, o que se conclui que é necessário se estudar mais a respeito. Em relação aos hormônios, quase nada se tem em humanos e praticamente todas as informações vem de estudos em roedores. Apenas um estudo mostrou que o  hormônio de crescimento (GH) se eleva de forma temporária quando se entra em jejum, o que seria uma resposta do corpo para auxiliar na preservação da massa magra e dos órgãos, queimando gordura para se obter energia nas primeiras 24 horas do jejum. Infelizmente não existe dados explicando como se comporta o GH com o passar dos dias e se esse efeito protetor do hormônio consegue se manter a longo prazo. Um segundo ponto seria o benefício sobre parâmetros de humor. E cá entre nós, manter o bom humor quando se está fazendo dieta é algo motivador! Muitas dietas são abandonadas por causa da irritação e do desconforto causados pela restrição de calorias. Embora um estudo controlado tenha sugerido redução de raiva, irritabilidade, insônia e confusão mental,  não ficou comprovado que realmente funcione dessa maneira.  Um terceiro ponto é sobre a prevenção de doenças quando se adere a regimes de JI. Em relação à longevidade, prevenção de câncer e de demência, não há nenhum dado em seres humanos que comprovem que a prática terapêutica do JI poderia ser benéfica. Na prevenção de doença cardíaca e diabetes, não temos ainda resultados dos chamados ensaios clínicos randomizados, que seriam os estudos que realmente mostrariam se há benefício comprovado. Mas uma análise com 648 indivíduos oriundos de 2 estudos observacionais mostrou uma redução significativa de doença coronariana e diabetes em uma população de religiosos americanos que praticavam jejum uma vez por mês.  Esses achados geram uma hipótese que favorece o JI como ferramente preventiva, mas infelizmente não fornecem elementos que comprovem que é seguro se submeter a essa prática para obter esses benefícios. E segurança é super importante quando se recomenda que alguém inicie uma dieta para emagrecer! Após 5-7 semanas, o jejum resulta em inanição, onde músculos e órgãos são queimados para manter o fornecimento de energia para o corpo. Sabe-se que uma perda de 40-60% do peso corporal pode resultar em sérios danos para a saúde e até morte. Embora uma dieta envolvendo JI não deveria causar esse risco, poderia causar danos quando praticada muito frequentemente ou por muitos dias consecutivos. São comuns queixas de dor de cabeça, ânsia de vômito, fraqueza, dores musculares, desmaios e desidratação. De forma preocupante, o jejum prolongado pode causar complicações graves, como arritmias cardíacas, deficiências de vitaminas e minerais, morte súbita durante o jejum e no início da realimentação. Em ratos, a aplicação de períodos de jejum resultou em alterações no coração (fibrose do miocárdio, aumento do diâmetro do átrio esquerdo e redução da reserva cardíaca) e esses achados devem ser levados em consideração quando se aplica esse tipo de dieta em humanos, pois não sabemos exatamente como ela funciona a longo prazo em nosso corpo. Da mesma forma, o JI poderia ser um facilitador para a perda de nutrientes, surgimento de desordens do comportamento alimentar (como anorexia e bulimia) e reduzir a imunidade.
Concluindo, com o que temos de evidências de estudos em seres humanos, podemos afirmar que a dieta do JI realmente emagrece, mas pode causar perdas grandes de massa muscular e água. O impacto do aumento do consumo de gordura para melhorar a tolerância do jejum e evitar essa perda não foi adequadamente estudado. O balanço entre o benefício a longo prazo da dieta de JI prolongado quando comparado com os danos da reduzida ingesta calórica  precisa ser melhor avaliado por mais estudos. Enquanto não tivermos mais resultados em seres humanos que acumulem evidências de que o JI é seguro para a saúde, não devemos recomendar essa prática. Devemos buscar saúde e não só resultados. É como diz o ditado popular: "por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento". E cá entre nós, isso ninguém quer.


Dr. Eduardo Guimarães Camargo
Médico Endocrinologista
CREMERS 23.404 - RQE 17.086

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