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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Um pouco mais sobre a “fadiga adrenal”

O termo "fadiga adrenal" tem sido utilizado por alguns médicos e outros profissionais da área de saúde para descrever um quadro clinico que, teoricamente, seria causado por um “esgotamento das adrenais pela exposição crônica a situações estressantes”. De acordo com essa teoria, o estresse crônico poderia levar ao "uso excessivo" das glândulas adrenais resultando em sua falha funcional. Embora sociedades endocrinológicas sérias do mundo inteiro não reconheçam essa tal “síndrome”, alguns profissionais defendem a existência da doença afirmando que ela é uma doença real e subdiagnosticada. Os defensores da existência da “fadiga adrenal” solicitam aos seus pacientes exames desnecessários, muitos deles não reconhecidos ou de validade suspeita, e prescrevem tratamento com corticoide sem necessidade. O uso de corticoides, mesmo que prescritos em doses ditas “pequenas e fisiológicas”, aumentam o risco de desordens psiquiátricas, osteoporose, miopatia, glaucoma, distúrbios metabólicos, distúrbios do sono e doença cardiovascular. 



Recentemente uma metanálise (que é uma técnica estatística especialmente desenvolvida para integrar os resultados de dois ou mais estudos independentes, sobre uma mesma questão de pesquisa) feita por endocrinologistas, analisou diversos artigos publicados sobre o tema com o objetivo de determinar a correlação entre o status adrenal e a queixa de fadiga e também de avaliar os métodos diagnósticos utilizados nesses estudos.

Os estudos utilizaram diferentes testes para avaliar o "status do cortisol”, entre eles, a resposta do cortisol sanguíneo ou salivar ao acordar, ritmo do cortisol salivar, teste de supressão com dexametasona, dosagem de ACTH ao acordar, teste de estímulo com baixas doses de cortrosina, medida de cortisolúria em urina de 24 horas, estimativa de liberação do cortisol medidas através de dosagens seriadas de cortisol salivar, cortisol salivar às 23h, níveis de S-DHEA, razão entre níveis de cortisol e ACTH, entre outros. Embora existam estudos demonstrando diferença entre o grupo de paciente saudáveis em comparação com “paciente fadigados”, questões metodológicas e fatores de confusão são evidentes nesses estudos, o que tornam os resultados de baixa qualidade e pouco confiáveis. Em nenhum estudo publicado foi utilizado o teste padrão-ouro da endocrinologia para avaliar a integridade e funcionalidade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal que é o teste de tolerância à insulina.

Estudando-se síndromes recentemente descritas que tem fadiga entre suas características clinica, como a Síndrome de Burnout (caracterizada por diminuição nas funções cognitivas e emocionais, exaustão e fadiga física que seriam desencadeados por situações estressantes associadas a excesso de trabalho) e a Síndrome da Fadiga Crônica, bem como analisando a fadiga secundária a outras doenças crônicas (como diabetes, neoplasias, HIV...), também não se encontrou nenhum diferença significativa entre níveis de cortisol de paciente doentes quando comparados com controles saudáveis. 

Ainda que qualquer um desses testes usados em estudos publicados sugiram produção insuficiente de cortisol, a etiologia deve ser sempre esclarecida. Como o eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal pode ser afetado por vários distúrbios crônicos e/ou metabólicos outras condições primárias devem ser excluídas antes de ser iniciada a avaliação de transtornos intrínsecos do eixo adrenal ou reposição com glicocorticoides. A queixa de fadiga pode estar associada a síndrome da apnéia obstrutiva do sono, insuficiência adrenal propriamente dita, doenças mentais, excesso de trabalho, outras deficiências hormonais, disfunções hepáticas e renais, condições cardíacas, doença pulmonar obstrutiva crônica, doenças auto-imunes, doenças infecciosas, fibromialgia, entre outros.

Sendo assim, exames para avaliação de cortisol ou do eixo adrenal não devem ser utilizados na prática clínica para examinar qualquer condição, exceto se suspeita de deficiência adrenal propriamente dita. A insuficiência adrenal verdadeira, que nada tem a ver com a “fadiga adrenal” é uma doença grave que não causa só fadiga, mas sim um quadro complexo que pode estar associado também à anorexia, sintomas de trato gastrointestinal (náuseas, vômitos...), tontura postural, dores musculares e articulares, perda de peso, hipotensão, anemia, distúrbios hidroeletrolíticos, hipoglicemias, entre outros sintomas. Esse quadro sim é real e grave e pode ser causado por doenças que prejudicam tanto a função da glândula adrenal (como destruição autoimune da glandula, tuberculose, infecções fúngicas, HIV, metástase, infarto adrenal, uso de algumas drogas, defeitos congênitos) como a função do hipotálamo ou da hipófise (como tumores, meningite tuberculosa, sarcoidose, cirurgia ou radioterapia na região hipotálamo-hipofisária, infarto glandular, mutações genéticas...). Apenas nesses casos, onde temos uma doença de fato e uma deficiência de produção hormonal verdadeira, é que a reposição com glicocorticoide está bem indicada. Em pacientes sem indicação, o tratamento traz muito mais riscos que benefícios.

RESUMINDO...

... A avaliação da função adrenal, visando detectar produção de cortisol deficiente, só deve ser pesquisada na suspeita clínica de uma insuficiência adrenal verdadeira e com testes diagnósticos reconhecidos pelas sociedades endocrinológicas. Fadiga adrenal não é uma doença reconhecida pela endocrinologia e os estudos até hoje publicados usam métodos contraditórios para o seu diagnóstico e têm resultados extremamente diversos entre si. Receber e carregar um diagnóstico inexistente pode fazer com que outras doenças estejam passando despercebidas e sem diagnóstico, retardando tratamentos realmente necessários e podendo levar a consequências ainda mais graves a longo prazo.


FONTE
Adrenal fatigue does not exist: a systematic Review - Cadegiani FA, Kater CE - BMC 
Endocrine Disorders (2016) 16:48


Fernanda M. Fleig
Médica Endocrinologista
CREMERS 33785 - RQE 28970
https://www.facebook.com/fernanda.endocrinologista/

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Fadiga adrenal: cuidado para não receber o diagnóstico de uma doença falsa

Entre os sintomas mais comuns nos dias de hoje estão a fadiga e o estresse. Quando percebe-se que os níveis de energia estão baixos, as pessoas buscam por respostas e soluções. Algumas procuram por uma “bala mágica” e acreditam que o complexo vitamínico correto será capaz de restabelecer o vigor. Outras querem saber se existem medicamentos ou estimulantes para tratar o quadro. A verdade é que a avaliação de sintomas vagos pode ser um verdadeiro desafio. Muitos de nós temos vidas movimentadas, que por vezes não nos permitem praticar exercícios ou mesmo dormir de forma adequada. A alimentação também acaba prejudicada pela falta de tempo e pela conveniência. A fadiga e o estresse podem fazer parte da vida, mas também podem ser sintomas de doenças mais graves. É justamente o fato de serem sintomas inespecíficos que tornam sua avaliação e tratamento, algumas vezes, não tão fáceis.
Para alguns defensores de “práticas alternativas”, esses sintomas vagos e inespecíficos foram agrupados em uma “doença inventada”, a “fadiga adrenal”. Contudo, não há até o momento qualquer evidência de que a “fadiga adrenal” exista como patologia. A Endocrine Society, uma das mais respeitadas organizações médicas do mundo, posicionou-se sobre o assunto recentemente:
“A fadiga adrenal não é uma condição médica real. Não existem fatos científicos para suportar a teoria que estresse físico, mental ou emocional esgotem as glândulas adrenais e causem sintomas.”



Palavras inequívocas! Mas a medicina baseada em evidências é ainda mais categórica em refutar uma doença falsa...
As adrenais são um par de glândulas localizadas uma sobre cada rim e produzem diversos hormônios, entre eles os hormônios do estresse adrenalina, noradrenalina e cortisol. Será que estas glândulas podem cansar se estimuladas em excesso? Mesmo na ausência de qualquer fato científico, o naturopata James Wilson cunhou o termo “fadiga adrenal” em um livro publicado em 1998. Dê uma olhada no questionário de Wilson abaixo. Você apresenta algum destes sintomas?
1- Cansado sem razão aparente.
2- Dificuldade em acordar de manhã.
3- Necessidade de café, refrigerantes tipo cola, doces ou salgadinhos para ter energia.
4- Sentindo-se para baixo ou estressado.
5- Fissurado em doces ou salgadinhos.
6- Lutando para manter as tarefas de rotina.
7- Não consegue se desenvencilhar do estresse e da doença.
8- Não se diverte.
9- Não tem vontade em manter relações sexuais.
Segundo Wilson, se você convive com qualquer um desses sintomas, você tem “fadiga adrenal”, a “doença falsa” mais prevalente no mundo, já que dificilmente alguém já não apresentou algum desses sintomas.
Porém, este questionário jamais foi validado, não existem provas nem literatura pertinente que possam embasá-lo. Uma busca detalhada na base de estudos médicos Pubmed com os termos “adrenal” AND “fatigue” retorna apenas um resultado relevante, que é uma revisão que não cita as fontes revisadas!
Doenças falsas são agrupamentos de diferentes sintomas dentro de condições sem nenhum embasamento científico. É da natureza do ser humano querer entender os padrões das doenças para propor tratamentos. Porém, definir um simples grupo de sintomas é o primeiro erro nesse processo de compreensão. Isto porque os sintomas precisam ser organizados de uma maneira racional para fazerem sentido dentro de uma síndrome clínica. No caso da “fadiga adrenal”, não existe esta explicação racional da progressão e gravidade dos diferentes sintomas, apenas um agrupamento simples. O segundo grande erro é usar uma lista desorganizada de sintomas para identificar pacientes com a doença. O terceiro erro é usar testes laboratoriais em sangue ou saliva, com suas diversas complicações metodológicas, para diagnosticar uma patologia que não é ao menos descrita de forma apropriada. Por fim, o pior de todos os erros é propor tratamento, seja ele qual for, para algo pobremente definido. Como saber se algo tão “amorfo” está melhorando ou piorando com um tratamento? Como saber se o próprio tratamento não está fazendo mal?
Enquanto a “fadiga adrenal” não existe, os sintomas que muitas pessoas apresentam são sim reais. Estes mesmos sintomas podem ser causados por doenças verdadeiras como apneia do sono, hipotireoidismo, diabetes, depressão, anemia, insuficiência adrenal, neoplasias, entre outras. Ao aceitar o diagnóstico de uma “doença falsa” perde-se tempo em realizar o diagnóstico correto de algo que pode ser potencialmente grave. Por fim, pode ser frustrante apresentar sintomas e após uma avaliação médica pormenorizada não se identificar uma causa. Mas esta situação é melhor do que ter a distração de tratar uma condição fictícia.


Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

domingo, 6 de novembro de 2016

O papel dos hormônios no envelhecimento

Estamos ficando mais maduros, isto é um fato! Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010 havia 18 milhões de pessoas com 60 anos ou mais e em 2050 serão 64 milhões. O envelhecimento é um processo biológico complexo e progressivo que diminui a função das nossas células e tecidos. Consequentemente, nosso corpo torna-se menos apto à reprodução e à sobrevivência. Desde o século 19, tem-se tentado achar uma "fonte de eterna juventude" através do uso de hormônios. Apesar do processo de envelhecimento ter sido apenas parcialmente decifrado e ser decorrente de uma intrincada acumulação de defeitos bioquímicos nos ácidos nucleicos, proteínas e membranas celulares, algumas pessoas ainda insistem em vender a ideia de que uma "modulação hormonal" possa ser capaz de impedir que fiquemos velhos.  As melhores evidências disponíveis até o momento culpam os seguintes processos em fragilizar nosso organismo: estresse oxidativo causado por radicais livres; glicosilação não enzimática de proteínas com perda de suas propriedades; alterações epigenéticas como metilação do DNA e acetilação de histonas, que dificultam a renovação celular e, consequentemente, o funcionamento dos diferentes tecidos. Complicado, não? No entanto, quais substâncias ou processos bioquímicos desencadeiam ou revertem estes processo ainda são desconhecidos. Além disso, o processo é individualizado, já que pessoas com a mesma idade cronológica podem parecer mais ou menos idosas quando comparadas entre si. Ou seja, a diminuição nos níveis de alguns hormônios é mais provavelmente consequência do que causa do processo de envelhecimento.



Quando avaliamos um indivíduo do ponto de vista hormonal, devemos estar cientes que alterações podem ser tanto devidas à idade quanto a doenças crônicas, muito comuns a medida que o tempo avança, mesmo que assintomáticas. Parece simples, mas na maioria das vezes esta distinção é muito difícil de ser feita, principalmente devido a falta de estudos que definam o que é "normal" para uma determinada faixa etária. De uma maneira geral, as seguintes alterações hormonais que aparecem com a idade são relevantes:
1- o único sistema hormonal em que há uma diminuição de função bem definida, abrupta e universal com o envelhecimento é no eixo hipotálamo-hipófise-ovários nas mulheres. É a famosa menopausa.
2- a produção de hormônio do crescimento, testosterona e do hormônio adrenal DHEA diminui com a idade. Existem valores de referência definidos para as diferentes faixas etárias. Contudo, se estes valores são fisiologicamente ótimos, ainda não sabemos.
3- alguns outros hormônios como o TSH, que estimula a tireoide, podem sofrer alteração com a idade. Mas estas alterações são menos previsíveis e os valores de referência são pouco definidos. Logo, qualquer alteração, deve ser cuidadosamente avaliada.
4- alguns hormônios acabam subindo ou diminuindo com a idade devido a uma diminuição ou aumento da sensibilidade dos tecidos alvos. Ou seja, trata-se apenas de um mecanismo de adaptação.
Até aqui, podemos perceber que alterações hormonais podem acontecer com o envelhecimento, mas não são necessariamente causas deste processo. Logo, uma "modulação hormonal" através da reposição indiscriminada de hormônios dificilmente terá efeito "anti-aging". Pode sim trazer riscos à saúde como veremos em outras oportunidades. 

Fonte: S Mitchell Harman. Endocrine changes with aging. UpToDate OnLine.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

sábado, 8 de outubro de 2016

Endocrinologia, uma especialidade de doenças prevalentes

Todos sabem que o cardiologista cuida do coração, que o ginecologista cuida da saúde das mulheres e que o pediatra trata de crianças. Contudo, apesar de ser uma especialidade em franca ascensão, alguém, volta e meia, sempre pergunta: “O que faz o endocrinologista?”.
Endocrinologista é o médico especialista nos transtornos das glândulas endócrinas. Diferentemente das glândulas exócrinas, que secretam substâncias nas cavidades internas ou para o exterior do corpo, as glândulas endócrinas são responsáveis por secretar substâncias na corrente sanguínea. Essas substâncias são chamadas de hormônios.



Os hormônios são responsáveis por uma série de funções fundamentais para o nosso organismo. Entre estas funções estão a regulação do metabolismo, da reprodução, do crescimento e do desenvolvimento.
Distúrbios da secreção ou da ação dos hormônios podem levar a uma série de doenças. Entre elas, as mais comumente tratadas pelo endocrinologista são:
- obesidade;
- alterações do colesterol e triglicerídeos;
- diabetes mellitus;
- doenças da tireoide;
- distúrbios da puberdade e do crescimento;
- alterações menstruais e excesso de pelos em mulheres;
- osteoporose e outras doenças do metabolismo do cálcio;
- doenças das glândulas hipófise e adrenais;
- deficiência de testosterona em homens.
Os hábitos de vida modernos, caracterizados por alimentação inapropriada e sedentarismo, assim como o aumento da expectativa de vida, são os responsáveis pelos níveis epidêmicos de algumas destas doenças. Por exemplo, de cada 100 brasileiros, estima-se que em torno de 40 estejam acima do peso, 10 estejam obesos e 12 estejam diabéticos. Já o hipotireoidismo (diminuição da produção de hormônios pela glândula tireoide) pode acometer cerca de 10 em cada 100 pessoas.
Uma vez que o médico endocrinologista está sendo cada vez mais requisitado, é importante que todos conheçam a abrangência da Endocrinologia como especialidade. Isso fará com que a população saiba procurar por este profissional quando necessário, garantindo assim tratamento qualificado para os problemas em questão.

Fonte: http://www.drmateusendocrino.com.br/2012/11/04/endocrinologia-uma-especialidade-de-doencas-prevalentes/

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
CREMERS 30.576 - RQE 22.991